A Questão do Esquecimento no Passado
março 7, 2007 por hugolapa
Dentro do Movimento Espírita Brasileiro, é muito comum nos depararmos com o argumento de que a TVP não pode ser aceita e reconhecida porque o espírito, ao reencarnar, necessita esquecer tudo aquilo que viveu em vidas pretéritas. Isso porque, se ele lembrasse de tudo o que viveu, não poderia recomeçar uma nova existência, pois estaria amarrado a suas crenças, pensamentos, atos, experiências e memórias de outras vidas, que ainda o envolveriam a tal ponto que seu desprendimento seria muito mais difícil. Assim, é necessário reencarnar e esquecer aquilo que se viveu, pois apenas o esquecimento pode facultar ao espírito a possibilidade de renovação, de recomeço, de convivência com pessoas que o espírito se relacionou no passado, dentre outras coisas.
A questão que aborda o esquecimento do passado está contida no Livro dos Espíritos, que é a obra que aborda os aspectos mais filosóficos do Espiritismo, lançando suas bases, seus princípios e fundamentos.
392 Por que o Espírito encarnado perde a lembrança de seu passado?
– O homem não pode nem deve saber tudo. Deus em Sua sabedoria quer assim. Sem o véu que lhe encobre certas coisas, o homem ficaria deslumbrado, como aquele que passa sem transição do escuro para a luz. O esquecimento do passado o faz sentir-se mais senhor de si.
Sem dúvida alguma, esse argumento é coerente e está de acordo com aquilo que pensamos. O esquecimento do passado é fundamental para que o ser que reencarnou possa recomeçar uma nova existência. É necessário que esqueçamos o que nos ocorreu em outras existências para que possamos nascer para uma nova realidade, dentro de uma nova época em outro contexto vivencial. Pois como se daria esse recomeço, como uma outra chance dada ao espírito durante a reencarnação, se ele lembrasse de tudo aquilo que foi e viveu? Milton Menezes, eminente terapeuta de vidas passadas, faz questionamentos semelhantes ao nosso, concordando também com o principio do esquecimento: “Como, uma criança conseguiria estruturar uma nova personalidade lembrando simultaneamente de todas as suas vidas passadas? Seria impossível.” Se esses arquivos não fossem apagados de sua memória imediata, é como se ele não tivesse uma outra chance, pois ainda guardaria aqueles traços, aquelas lembranças e tudo aquilo que o prende ao passado. Embora todas essas experiências ainda perdurem dentro dele em estado latente, com sua nova vida em uma nova encarnação, ele poderá transcender aquilo que passou, e adequar-se a um novo cenário encarnatório.
No entanto, apesar do esquecimento do passado ser necessário, isso não significa que ele deva permanecer indefinidamente. O esquecimento é necessário como uma necessidade encarnatória, e como já dissemos, para que haja um novo começo, dentro de uma nova tentativa de aprendizado e evolução. Porém, sabemos que algumas coisas são necessárias, mas não é por isso que elas devem ter uma continuidade ad eternum. Veja o exemplo do sofrimento. Muitos indivíduos estão tão fixados e duros em seus apegos que só conseguem aprender e evoluir pelo sofrimento, e não pela percepção de qual caminho seguir. Porém, o sofrimento se faz importante num determinado momento, mas não é porque ele teve seu valor um dia, que ele deve continuar para sempre. Por este motivo, a noção do esquecimento do passado não contradiz a aplicabilidade da Terapia de Vidas Passadas. Em suma, o esquecimento do passado é fundamental dentro de uma necessidade encarnatória para a alma que está nascendo, porém, ele pode ter um tempo de duração relativamente curto se uma pessoa reúne as características necessárias à recordação daquilo que foi no passado. Nesse sentido, a TVP não nega o valor do esquecimento, mas situa-o dentro de um processo que pode ser revertido para que o espírito possa tomar consciência de sua jornada encarnatória de várias vidas e se conscientize dos padrões e contrapadrões que repetiu ao longo do tempo. Nesse sentido, o esquecimento do passado é importante num momento, e a lembrança do passado é importante em outro momento.
Dentro dessa perspectiva da importância da lembrança do passado o próprio Allan Kardec explica no mesmo capítulo do livro dos espíritos que, em certas circunstâncias, os espíritos superiores podem permitir a revelação do passado. Diz ele: Ao entrar na vida corporal, o Espírito perde, momentaneamente, a lembrança de suas existências anteriores, como se um véu as ocultasse; entretanto, às vezes, tem uma vaga consciência disso e elas podem até mesmo lhe ser reveladas em algumas circunstâncias. Mas é apenas pela vontade dos Espíritos Superiores que o fazem espontaneamente, com um objetivo útil e nunca para satisfazer uma curiosidade vã.
Além disso, sabemos que algumas crianças se recordam de suas encarnações passadas e isso ocorre de forma espontânea e não-provocada por nenhum tipo de técnica. Nesse sentido, será que as leis que regulam o esquecimento não seriam válidas para estas pessoas, ou será que em alguns casos talvez a lembrança seja importante por algum motivo ainda desconhecido? Em outros casos, pessoas podem ter acesso a outras vidas pela via dos sonhos. Há muitos relatos de lembrança de encarnações passadas no período noturno, quando a pessoa está num estado de sonolência que lhe permite acessar determinados conteúdos que estão vedados à consciência objetiva de vigília. Neste caso, elas tiveram uma lembrança que provavelmente não foi casual, ou seja, era preciso que houvesse a recordação pois ela poderia associar os principais eventos de sua vida passada com aquilo que acontece em sua existência presente. Sabemos que existem alguns princípios e técnicas ensinadas por algumas Ordens Iniciáticas que possibilitam ao discípulo entrar em contato consciente com vidas pretéritas. Neste processo, o praticante apenas consegue lembrar aquilo que é fundamental para o reconhecimento de algum aspecto de si mesmo, buscando assim o autoconhecimento. Seguindo essa mesma linha, o Livro dos Espíritos ensina o seguinte:
395 Podemos ter algumas revelações de nossas existências anteriores?
- Nem sempre. Muitos sabem, entretanto, o que foram e o que fizeram; se fosse permitido dizer abertamente, fariam singulares revelações sobre o passado.
Em TVP, observamos que ocorre o mesmo processo. O Eu Interior da pessoa que se submete à regressão de memória possui um crivo natural que serve como peneira de todas as lembranças. Ou seja, só vêm à tona aquilo que tem valor para a atual encarnação e também aquilo que a pessoa esteja apta a suportar. Caso contrário, existem mecanismos de defesa naturais que impedem o resgate daquele conteúdo mais negativo, o qual a pessoa não possui estrutura para assimilar e elaborar.
Porém, devemos agora nos perguntar, em que momento a lembrança se torna importante?
Quando as repercussões de vidas passadas passam a influenciar a vida atual de tal forma que a pessoa sofra com isso, e não consiga se desprender dos traumas e apegos de outras vidas. Com isso, se faz necessária à catarse, os insights e a tomada de consciência dos laços kármicos entre o passado e o presente. Quando se entende o motivo das situações que vivenciamos no presente, podemos sem duvida resolve-las de uma forma muito mais simples, além da possibilidade de descarregar aquelas emoções retidas, e tratar as personalidades do passado que ainda influenciam na presente encarnação.
Palavras dos Espíritos
“Nos alicerces do Inconsciente profundo encontram-se os extratos das memórias pretéritas, ditando comportamentos atuais, que somente uma análise regressiva consegue detectar, eliminando os conteúdos perturbadores, que respondem por várias alienações mentais.”
(Joana de Angelis – Livro: O Homem Integral)